Fonte:
QUEIRS, Ea de. Cartas D'Amor - O Efmero Feminino. Rio de Janeiro: Garamond, 2001.

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Celia Terezinha Zago

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CARTAS D'AMOR
Ea de Queirs



Primeira Carta a Madame de Jouarre



Minha querida madrinha.



     Ontem, em casa de Madame de Tressan, quando passei, levando para a ceia Libuska, estava sentada, conversando consigo, por debaixo do atroz retrato da marechala 
de Mouy, uma mulher loura, de testa alta e clara, que me seduziu logo, talvez por lhe pressentir, apesar de to indolentemente enterrada num div, uma rara graa 
no andar, graa altiva e ligeira de deusa e de ave. Bem diferente da nossa sapiente Libuska, que se move com o esplndido peso de uma esttua! E do interesse por 
esse outro passo, possivelmente alado e dinico (de Diana), provm estas gratujas.  
     Quem era? Suponho que nos chegou do fundo da provncia, de algum velho castelo do Anjou com erva nos fossos, porque me no lembro de Ter encontrado em Paris 
aqueles cabelos fabulosamente louros como o sol de Londres em Dezembro - nem aqueles ombros decados, dolentes, anglicos, imitados de uma madona de Mantegna, e 
inteiramente desusados em Frana desde o reinado de Carlos X, do "Lrio no Vale" e dos coraes incompreendidos. No admirei com igual fervor o vestido preto, onde 
reinavam coisas escandalosamente amarelas. Mas os braos eram perfeitos; e nas pestanas, quando as baixava, parecia pender um romance triste. Deu-me assim a impresso, 
ao comeo, de ser uma elegaca do tempo de Chateaubriand. Nos olhos porm surpreendi-lhe depois uma fasca de vivacidade sensvel - que a datava do sculo XVIII. 
Dir minha madrinha: "Como pude eu abranger tanto, ao passar, com Libuska ao lado fiscalizando?"  que voltei. Voltei, e da ombreira da porta readmirei os ombros 
de velas por trs, entre as orqudeas, nimbava de ouro; e sobretudo o sutil encanto dos olhos - dos olhos finos e lnguidos... Olhos finos e lnguidos.  a primeira 
expresso em que hoje apanho decentemente a realidade.    
     Por que  que no me adiantei, e no pedi uma " apresentao?" Nem sei. Talvez o requinte em retardar, que fazia com que La Fontaine, dirigindo-se mesmo para 
a felicidade, tomasse sempre o caminho mais longo. Sabe o que dava tanta seduo ao Palcio das Fadas, nos tempos do rei Artur? No sabe. Resultados de no ler Tennyson... 
Pois era a imensidade de anos que levava a chegar l, atravs de jardins encantados, onde cada recanto de bosque oferecia a emoo inesperada de um flirt, de uma 
batalha, ou de um banquete... (Com que mrbida propenso acordei hoje para o estilo asitico!) O fato  que, depois da contemplao junto  ombreira, voltei a cear 
ao p da minha radiante tirana. Mas por entre a banal sandwich de foie-gras, e um copo de Tokay que Voltaire, j velho, se recordava de ter bebido em casa de Madame 
de Etioles (os vinhos dos Tressans descendem em linha varonil dos venenos de Brinvilliers), vi, constantemente vi, os olhos finos e lnguidos. No h seno o homem, 
entre os animais, para misturar a languidez de um olhar fino a fatias de foie-gras. No o faria decerto um co de  boa raa. Mas seramos ns desejados pelo "efmero 
feminino" se no fosse esta providencial brutalidade? S a poro da matria que h no homem faz com que as mulheres se resignem  incorrigvel poro de ideal, 
que nele h tambm - para eterna perturbao do mundo. O que mais prejudicou Petrarca aos olhos de Laura - foram os "Sonetos". E quando Romeu, j com um p na escada 
de seda, se demorava, exalando o seu xtase em invocaes  noite e  Lua - Julieta batia os dedos impacientes no rebordo do balco, e pensava: "Ai, que palrador 
que s, filho dos Montaigus!" Este detalhe no vem em Shakespeare - mas  comprovado por toda a Renascena. No me amaldioe por esta sinceridade de meridional cptico, 
e mande-me dizer que nome tem, na parquia, a loura castel do Anjou. A propsito de castelos: cartas de Portugal anunciam-me que o quiosque por mim mandado erguer 
em Sintra, na minha quintarola, e que lhe destinava como "seu pensadoiro e retiro nas horas de sesta" - abateu. Trs mil e oitocentos francos achatados em entulho. 
Tudo tende  runa num pas de runas. O arquiteto que o construiu  deputado, e escreve no "Jornal da Tarde" estudos melanclicos sobre as Finanas! O meu procurador 
em Sintra aconselha agora, para reedificar o quiosque, um estimvel rapaz, de boa famlia, que entende de construes e que  empregado na procuradoria Geral da 
Coroa! Talvez se eu necessitasse um jurisconsulto, me propusessem um trolha.  com estes elementos alegres, que ns procuramos restaurar o nosso imprio de frica! 
Servo humilde e devoto.



Fradique  




Primeira Carta a Clara

     No, no foi na Exposio dos Aguarelistas, em Maro, que eu tive consigo o meu primeiro encontro, por mandado dos Fados. Foi no inverno, minha adorada amiga, 
no baile dos Tressans. Foi a que a vi, conversando com Madame de Jouarre, diante de um console, cujas luzes, entre os molhos de orqudeas, punham nos seus cabelos 
aquele nimbo de ouro que to justamente lhe pertence como "rainha de graa entre as mulheres". Lembro ainda, bem religiosamente, o seu sorrir cansado, o vestido 
preto com relevos cor de boto de ouro, o leque antigo que tinha fechado no regao; mas logo tudo em redor me pareceu irreparavelmente enfadonho e feio; e voltei 
a readmirar, a meditar em silncio a sua beleza, que me prendia pelo esplendor patente e compreensvel, e ainda por  no sei qu de fino, de espiritual, de dolente 
e de meigo que brilhava atravs e vinha da alma. E to intensamente me embebi nessa contemplao, que levei comigo a sua imagem, decorada e inteira, sem esquecer 
um fio dos seus cabelos ou uma ondulao da seda que a cobria, e corri a encerrar-me com ela, alvoroado, como um artista que nalgum escuro armazm, entre poeira 
e cacos, descobrisse a obra sublime de um mestre perfeito.
     E, por que o no confessarei? Essa imagem foi para mim, ao princpio, meramente um quadro, pendurado no fundo da minha alma, que eu a cada doce momento olhava 
- mas para  lhe louvar apenas, com crescente surpresa, os encantos diversos de linha e de cor. Era somente uma rara tela, posta em sacrrio, imvel e muda no seu 
brilho, sem outra influncia mais sobre mim que a de uma forma muito bela que cativa um gosto muito educado. O meu ser  continuava livre, atento s curiosidades 
que at a o seduziam, aberto aos sentimentos que at a o solicitavam; - e s quando sentia a fadiga das coisas imperfeitas ou o desejo novo de uma ocupao mais 
pura, regressava  imagem que em mim guardava, como um Fra Anglico, no seu claustro, pousando os pincis ao fim do dia, e ajoelhando ante a Madona a implorar dela 
repouso e inspirao superior.
     Pouco a pouco, porm, tudo o que no foi esta contemplao, perdeu para mim o valor e encanto. Comecei a viver cada dia mais retirado no fundo da minha alma, 
perdido na admirao da imagem que l rebrilhava -  at que s essa ocupao me pareceu digna da vida, no mundo todo no reconheci mais que uma aparncia inconstante, 
e fui como um monge na sua cela, alheio s coisas mais reais, de joelhos e hirto no seu sonho, que  para ele a nica realidade.  
     Mas no era, minha adorada amiga, um plido e passivo xtase diante da sua imagem. No! Era antes um ansioso e forte estudo dela, com que eu procurava conhecer 
atravs da forma e essncia, e (pois a Beleza  o esplendor da Verdade) deduzir das perfeies do seu Corpo as superioridades da sua Alma. E foi assim que lentamente 
surpreendi o segredo da sua natureza; a sua clara testa que o cabelo descobre, to clara e lisa, logo me contou a retido do seu pensar: o seu sorriso, de uma nobreza 
to intelectual, facilmente me revelou o seu desdm do mundanal e do efmero, a sua incansvel aspirao para um viver de verdade: cada graa de seus movimentos 
me traiu uma delicadeza do seu gosto: e nos seus olhos diferenciei o que neles to adoravelmente se confunde, luz de razo, calor que melhor alumia... J a certeza 
de tantas perfeies bastaria a fazer dobrar, numa adorao perptua, os joelhos mais rebeldes. Mas sucedeu ainda que, ao passo que a compreendia e que a sua Essncia 
se me manifestava, assim visvel e quase tangvel, uma influncia descia dela sobre mim - uma influncia estranha, diferente de todas as influncias humanas, e que 
me dominava com transcendente onipotncia. Como lhe poderei dizer? Monge, fechado na minha cela, comecei a aspirar  santidade, para me harmonizar e merecer a convivncia 
com a Santa a que me votara. Fiz ento sobre mim um spero exame de conscincia. Investiguei com inquietao se o meu pensar era condigno da pureza do seu pensar; 
se no meu gosto no haveria desconcertos que pudessem ferir a disciplina do seu gosto; se a minha idia da vida era to alta e sria como aquela que eu pressentira 
na espiritualidade do seu olhar, do seu sorrir; e se meu corao no se dispersara e enfraquecera de mais para poder palpitar com paralelo vigor junto do seu corao. 
E tem sido em mim agora um arquejante esforo para subir a uma perfeio idntica quela que em si to submissamente adoro.
     De sorte que a minha querida amiga, sem saber, se tornou a minha educadora. E to dependente fiquei logo desta direo, que j no posso conceber os movimentos 
do meu ser seno governados por ela e por ela enobrecidos. Perfeitamente sei que tudo o que hoje surge em mim de algum valor, idia ou sentimento,  obra dessa educao 
que a sua alma d  minha, de longe, s com existir e ser compreendida. Se hoje me abandonasse a sua influncia -  devia antes dizer, como um asceta, a sua Graa 
- todo eu rolaria para uma inferioridade sem remio. Veja pois como se me tornou necessria e preciosa... E considere que, para exercer esta supremacia salvadora, 
as suas mos no tiveram de se impor sobre as minhas - bastou que eu a avistasse de longe, numa festa, resplandecendo. Assim um arbusto silvestre floresce  borda 
de um fosso, porque l em cima nos remotos cus fulge um grande sol, que no o v, no o conhece, e magnanimamente o faz crescer, desabrochar, e dar o seu curto 
aroma... Por isso o meu amor tinge esse sentimento indescrito e sem nome que a Planta, se tivesse conscincia, sentiria pela luz. 
E considere ainda que, necessitando de si como da luz, nada lhe rogo, nenhum bem imploro de quem tanto pode e  para mim dona de todo bem. S desejo que me deixe 
viver sob essa influncia, que, emanando do simples brilho das suas perfeies, to fcil e docemente opera o meu aperfeioamento. S peco esta permisso caridosa. 
Veja pois quanto me conservo distante e vago, na esbatida humildade de uma adorao que at receia que o seu murmrio, um murmrio de prece, roce o vestido da imagem 
divina...
     Mas se a minha querida amiga por acaso, certa do meu renunciamento a toda a recompensa terrestre, me permitisse desenrolar junto de si, num dia de solido, 
a agitada confidncia do meu peito, decerto faria um ato de inefvel misericrdia - como outrora a Virgem Maria quando animava os seus adoradores, ermitas e santos, 
descendo numa nuvem e concedendo-lhes um sorriso  fugitivo, ou deixando-lhes cair entre as mos erguidas uma rosa do paraso. Assim, amanh, vou  passar a tarde 
com Madame de Jouarre. No h a a santidade de uma cela ou de uma ermida, mas quase o seu isolamento: e se a minha querida amiga surgisse, em pleno resplendor, 
e eu recebesse de si, no direi uma rosa, mas um sorriso, ficaria ento radiosamente seguro de que este amor, ou este meu sentimento indescrito e sem nome que vai 
alm do amor, encontra ante seus olhos piedade e permisso para esperar.



Fradique        




Segunda Carta a Clara


Meu amor.


Ainda h poucos instantes (dez instantes, dez minutos, que tanto gastei num desolador desde a nossa Torre de Marfim), eu sentia o rumor do teu corao junto ao meu, 
sem que nada os separasse seno uma pouca de argila mortal, em ti to bela, em mim to rude - e j estou tentando reconfigura ansiosamente, por meio deste papel 
inerte, esse inefvel estar contigo que  hoje todo o fim da minha vida, a minha suprema e nica vida.  que , longe da tua presena, cesso de viver, as coisas para 
mim cessam de ser - e fico como um morto jazendo no meio de um mundo morto, Apenas, pois, me finda esse perfeito e curto momento de vida que me ds, s com pousar 
junto de mim e murmurar o meu nome - recomeo a aspirar desesperadamente para ti, como uma ressurreio!
     Antes de te amar, antes de receber das mos de meu deus a minha Eva - que era eu, na verdade? Uma sombra flutuando entre sombras. Mas tu vieste, doce adorada, 
para me fazer sentir a minha realidade, e me permitir que eu bradasse tambm triunfalmente o meu - "Amo, logo existo!" E no foi s a minha realidade que me desvendaste 
- mas ainda a realidade de todo este universo, que me envolvia como um ininteligvel e cinzento monto de aparncias. Quando h dias, no terrao de Savran, ao anoitecer, 
te queixavas que eu contemplasse as estrelas estando to perto dos teus olhos, e espreitasse o adormecer das colinas junto ao calor dos teus ombros - no sabias, 
nem eu te soube ento explicar, que essa contemplao era ainda um modo novo de te adorar, porque realmente estava admirando, nas coisas, a beleza inesperada que 
tu sobre elas derramas por uma emanao que te  prpria, e que antes de viver ao teu lado, nunca eu lhes percebera, como se no percebe a vermelhido das rosas 
ou o verde tenro das relvas antes de nascer o Sol! Foste tu, minha bem-amada, que alumiaste o mundo. No teu amor recebi a minha iniciao. Agora entendo, agora sei. 
E, como o antigo iniciado, posso afirmar: "Tambm fui a Elusis; pela larga estrada pendurei muita flor que no era verdadeira, diante de muito altar que no era 
divino; mas a Elusis cheguei, em Elusis penetrei - e vi e senti a verdade!..."
     E acresce ainda, para meu martrio e glria, que tu s to suntuosamente bela e to etereamente bela, de uma beleza feita de Cu e de Terra, beleza completa 
e s tua, que eu j concebera - que nunca julgara realizvel. Quantas vezes, ante aquela sempre admirada e toda perfeita Vnus de Milo, pensei que, se debaixo da 
sua testa de Deusa, pudessem tumultuar os cuidados humanos; se os seus olhos soberanos e mudos se soubessem toldar de lgrimas; se os seus lbios, s talhados para 
o mel e para os beijos, consentissem em tremer no murmrio de uma prece submissa; se sob esses seios, que foram o apetite sublime dos Deuses e Heris, um dia palpitasse 
o amor e com ele a Bondade; se o seu mrmore sofresse, e pelo sofrimento se espiritualizasse, juntando ao esplendor da Harmonia a graa da Fragilidade; se ela fosse 
do nosso tempo e sentisse os nossos males, e permanecendo Deusa do Prazer se tornasse Senhora da Dor - ento no estaria colocada num museu, mas consagrada num santurio, 
porque os homens, ao reconhecer nela a aliana sempre almejada e sempre frustrada do Real e do Ideal, decerto a teriam aclamado in aeternum, como a definitiva Divindade. 
Mas qu! A pobre Vnus s oferecia a serena magnificncia da carne. De todo lhe faltava a chama que arde na lama e a consome. E a criatura incomparvel do meu cismar, 
a Vnus Espiritual, Citeria e Dolorosa, no existia, nunca existiria!... E quando eu assim pensava, eis que tu surges, e eu te compreendo! Eras a encarnao do 
meu sonho, ou antes de um sonho que deve ser universal - mas s eu te descobri, ou, to feliz fui, que s por mim quiseste ser descoberta!
     V, pois, se jamais te deixarei escapar dos meus braos! Por isso mesmo s a minha Divindade - para sempre e irremediavelmente ests presa dentro da minha adorao. 
Os sacerdotes de Cartago acorrentavam s lajes dos Templos, com cadeias de bronze, as imagens de seus Baals. Assim te quero tambm, acorrentada dentro do templo 
Avaro que te constru, s Divindade minha, sempre no eu altar - e eu sempre diante dele rojado, recebendo constantemente na alma a tua visitao, abismando-me sem 
cessar na tua essncia, de modo que nem por um momento se descontinue essa fuso inefvel, que  para ti um ato de Misericrdia e para mim de Salvao. O que eu 
desejaria na verdade  que fosses invisvel para todos e como no existente - que perpetuamente um estofo informe escondesse o teu corpo, uma rgida mudez ocultasse 
a tua inteligncia. Assim passarias no mundo como uma aparncia incompreendida. E s para mim, de dentro do invlucro escuro, se revelaria a tua perfeio rutilante. 
V quanto te amo - que e queria entrouxada num rude, vago vestido de merino, com um ar quedo, inanimado... Perderia assim o triunfal contentamento de ver resplandecer 
entre a multido maravilhada aquela que em segredo nos ama. Todos murmurariam compassivamente: "Pobre criatura!" E s eu saberia, da "pobre criatura", o corpo e 
a alma adorveis!
     Quanto adorveis! Nem compreendo que, tendo conscincia do teu encanto, no estejas de ti namorada como aquele Narciso que reme de frio, coberto de musgo,  
beira da fonte, em Savran. Mas eu largamente te amo, e por mim e por ti! A tua beleza, na verdade, atinge a altura de uma virtude - e foram decerto os modos to 
puros da tua alma que fixaram as linhas to formosas do teu corpo. Por isso h em mim um incessante desespero de no e saber amar condignamente - ou antes (pois 
desceste de um Cu superior) de no saber tratar, como ela merece, a hspede divina do meu corao. Desejaria, por vezes, envolver-te toda numa felicidade imaterial, 
serfica, calma infinitamente como deve ser a Bem-Aventurana - e assim deslizarmos enlaados atravs do silncio e da luz, muito brandamente, num sonho cheio de 
certeza, saindo da vida  mesma hora e indo continuar no Alm o mesmo sonho exttico. E outras vezes desejaria arrebatar-te numa felicidade veemente, tumultuosa, 
fulgurante, toda de chama, de tal sorte que nela nos destrussemos sublimemente, e de ns s restasse uma pouca de cinza sem memria e sem nome! Possuo uma velha 
gravura que  um Satans, ainda em toda a refulgncia da beleza arcanglica, arrastando nos braos para o Abismo uma freira, uma Santa, cujos derradeiros vus de 
penitncia se vo esgaando pelas pontas das rochas negras. E na face da santa, atravs do horror, brilha, irreprimida e mais forte que o horror, uma tal alegria 
e paixo, to intensas - que eu as apeteceria para ti, oh minha santa roubada! Mas de nenhum destes modos te sei amar, to fraco ou inbil  o meu corao, de modo 
que por o meu amor no ser perfeito, tenho de me contentar que seja eterno. Tu sorris tristemente desta Eternidade. Ainda ontem me perguntavas: "No calendrio do 
seu corao, quantos dias dura a Eternidade? " Mas considera que eu era um morto - e que tu me ressuscitaste. O sangue novo que me circula nas veias, o esprito 
novo que em mim sente e compreende, so o meu amor por ti - e se ele me fugisse, eu teria outra vez, regelado e mudo, de reentrar no meu sepulcro. S posso deixar 
de te amar - quando deixar de ser. E a vida contigo, e por ti,  to inexprimivelmente  bela!  a vida de um deus. Melhor talvez: -  se eu fosse esse pago que tu 
afirmas que sou, mas um pago do Lcio, pastor de gados, crente ainda em Jpiter e Apolo, a cada instante temeria que um desses deuses invejosos te raptasse, te 
elevasse ao Olimpo para completar a sua ventura divina. Assim no receio - toda minha te sei para todo o sempre, olho o mundo em torno de ns como um paraso para 
ns criado, e durmo seguro sobre o teu peito na plenitude da glria, oh minha trs vezes bendita, Rainha da minha graa.
     No penses que estou compondo cnticos em teu louvor.  em plena simplicidade que deixo escapar o que me est borbulhando na alma... Ao contrrio! Toda a Poesia 
de todas as idades, na sua gracilidade ou na sua majestade, seria impotente para exprimir o meu xtase. Balbucio, como posso, a minha infinita orao. E nesta desoladora 
insuficincia do verbo humano,  como o mais inculto e o mais iletrado que ajoelho ante ti, e levanto as mos, e te asseguro a nica verdade, melhor que todas as 
verdades - que te amo, e te amo, e te amo, e te amo!...


                   Fradique









Terceira Carta a Clara



Toda em queixumes, quase rabugenta, e mentalmente trajada de luto, me apareceu hoje a tua carta com os primeiros frios de Outubro. E por qu, minha doce descontente? 
Porque, mais fero de corao que um Trastamara ou um Brgia, estive cinco dias (cinco curtos dias de Outono) sem te mandar uma linha, afirmando essa verdade to 
patente e de ti conhecida como o disco do Sol - "que s em ti penso, e s em ti vivo!..." Mas no sabes tu, oh super amada, que a tua lembrana me palpita na alma 
to natural e perenemente como o sangue no corao? Que outro princpio governa e mantm a minha vida seno o teu amor? Realmente necessitas ainda, cada manha, um 
certificado, em letra bem firme, de que minha paixo est viva e viosa e te envia os bons-dias? Para qu? Para sossego da tua incerteza? Meu Deus! No ser antes 
par regalo do teu orgulho? Sabes que s deusa, e reclamas incessantemente o incenso e os cnticos do teu devoto. Mas Santa Clara, tua padroeira, era uma grande santa, 
de alta linhagem, de triunfal beleza, amiga de S> Francisco de Assis, confidente de Gregrio IX, fundadora de mosteiros, suave fonte de piedade e milagres - e todavia 
s  festejada uma vez, cada ano, a 27 de Agosto!
     Sabes bem que estou gracejando, Santa Clara da minha f! No! No mandei linha suprflua, porque todos os males bruscamente se abateram sobre mim: um defluxo 
burlesco, com melancolia, obtusidade e espirros: um confuso duelo, de que fui o enfastiado padrinho, e em que apenas um ramo seco de olaia sofreu, cortado por uma 
bala; e, enfim, um amigo que regressou da Abissnia, cruelmente abissinizante, e a quem tive de escutar com resignado pasmo as caravanas, os perigos, os amores, 
as faanhas e os lees!... E a est a minha pobre Clara, solitria nas suas florestas, ficou sem essa folha, cheia das minhas letras, e to intil par a segurana 
do seu corao como as folhas que a cerca, j murchas decerto e danando no vento.
     Porque no sei como se comportam os teus bosques; - mas aqui as folhas do meu pobre jardim amarelam e rolam na erva mida. Para me consolar da verdura perdida, 
acendi o meu lume: - e toda a noite de ontem mergulhei na muito velha crnica de um cronista medieval da minha terra, que se chama Ferno Lopes. A se conta de um 
rei que recebeu o dbil nome de "Formoso", e que, por causa de um grande amor, desdenhou princesas de Castela e de Araro, dissipou tesouros, afrontou sedies, 
sofreu a desafeio dos povos, perdeu a vassalagem de castelos e terras, e quase estragou o reino! Eu j conhecia a crnica - mas s agora compreendo o rei. E grandemente 
o invejo, minha linda Clara! Quando se ama como ele (ou como eu), deve ser um contentamento esplndido o ter princesas da cristandade, e tesouros, e um povo, e um 
reino forte para sacrificar a dois olhos, finos e lnguidos, sorrindo pelo que esperam e mais pelo que prometem... Na verdade s se deve amar quando se  rei - porque 
s ento se pode comprovar a altura do sentimento com a magnificncia do sacrifcio. Mas um mero vassalo como eu (sem hoste ou castelo), que possui ele de rico, 
ou de nobre, ou de belo para sacrificar?  Tempo, fortuna, vida? Mesquinhos valores.  como ofertar na mo aberta um pouco de p. E depois a bem-amada nem sequer 
fica na histria.
     E por histria - muito aprovo, minha estudiosa Clara, que andes lendo a do divino Buda. Dizes, desconsoladamente, que ele te parece apenas "um Jesus muito complicado". 
Mas, meu amor,  necessrio desentulhar esse pobre Buda da densa aluvio de Lendas e Maravilhas que sobre ele tem acarretado, durante sculos, a imaginao da sia. 
Tal como ela foi, desprendida da sua mitologia, e na sua nudez histrica - nunca alma melhor visitou a Terra, e nada iguala, como virtude herica, a "Noite do Renunciamento". 
Jesus foi um proletrio, um mendigo sem vinha ou leira, sem amor nenhum terrestre, que errava pelos campos da Galilia, aconselhando aos homens a que abandonassem 
como ele os seus lares e bens, descessem  solido e  mendicidade, para penetrarem um dia num Reino venturoso, abstrato, que est nos Cus. Nada sacrificava em 
si e instigava os outros ao sacrifcio - chamando todas as grandezas ao nvel da sua humildade. O Buda, pelo contrrio, era um Prncipe, e como eles costumam ser 
na sia, de ilimitado poder, de ilimitada riqueza: casara por um imenso amor, e da lhe viera um filho, em quem esse amor mais se sublimara: - e este prncipe, este 
esposo, este pai, um dia, por dedicao aos homens, deixa o seu palcio, o seu reino, a esposada do seu corao, o filhinho adormecido no bero de ncar, e, sob 
a rude estamenha de um mendicante, vai atravs do mundo esmolando e pregando a renncia aos deleites, o aniquilamento de todo o desejo, o ilimitado amor pelos seres, 
o incessante aperfeioamento na caridade, o desdm forte do ascetismo que se tortura, a cultura perene da misericrdia que resgata, e a confiana na morte...
     Incontestavelmente, a meu ver (tanto quanto estas excelsas coisas se podem discernir de uma casa de Paris, no sculo XIX e com defluxo) a vida do Buda  mais 
meritria. E depois considera a diferena do ensino dos dois divinos Mestres. Um, Jesus, diz: "Eu sou filho de Deus, e insto com cada um de vs, homens mortais, 
em que pratiqueis o bem durante os poucos anos que passais na Terra, para que eu depois, em prmio, vos d a cada um, individualmente, uma existncia superior, infinita 
em anos e infinita em delcias, num palcio que est alm das nuvens e que  de meu Pai!" O Buda, esse, diz simplesmente: "Eu sou um pobre frade mendicante, e peco-vos 
que sejais bons durante a vida, porque de vs, em recompensa, nascero outros melhores, e desses outros ainda mais perfeitos, e assim, pela prtica crescente da 
virtude em cada gerao, se estabelecer pouco a pouco na Terra a virtude universal!" A justia do justo, portanto, segundo Jesus, s aproveita egoisticamente ao 
justo. E a justia do justo, segundo Buda, aproveira ao ser que o substituir na existncia, e depois ao outro que deve nascer, sempre durante a passagem na Terra, 
para lucro eterno da Terra. Jesus cria uma aristocracia de santos, que arrebata para o Cu onde ele  Rei, e que constituem a corte do Cu para deleite da sua divindade: 
- e no vem dela proveito direto para o Mundo, que continua a sofrer da sua poro de Mal, sempre indiminuda. O Buda, esse, cria, pela soma das virtudes individuais, 
santamente acumuladas, uma humanidade que em cada ciclo nasce progressivamente melhor, que por fim se torna perfeita, e que se estende a toda Terra donde o Mal desaparece, 
e onde o Buda  sempre,  beira do caminho rude, o mesmo frade mendicante. Eu, minha flor, sou pelo Buda. Em todo o caso, esses dois Mestres possuram, para bem 
dos homens, a maior Poro de divindade que at hoje tem sido dado  alma humana conter. De resto, tudo isto  muito complicado; e tu sabiamente procederias em deixar 
o Buda no seu budismo, e, uma vez que esses teus bosques so to admirveis, em te retemperar na sua forca e nos seus aromas salutares. O Buda pertence  cidade 
e ao colgio de Franca: no campo a verdadeira Cincia deve cair das rvores, como nos tempos de Eva. Qualquer folha de olmo te ensina mais que todas as folhas dos 
livros. Sobretudo do que eu -  que aqui estou pontificando, e fazendo pedantemente, ante os teus lindos olhos, to finos e meigos, um curso escandaloso de Religies 
Comparadas.
     S me restam trs polegadas de papel - e ainda te no contei, oh doce exilada, as novas de Paris, acta Urbis. (Bom, agora latim!) So raras, e plidas. Chove; 
continuamos em repblica; Madame de Jouarre, que chegou da Rocha com menos cabelos brancos, mas mais cruel, convidou alguns desventurados (dos quais eu o maior) 
para escutarem trs captulos dum novo atentado do baro de Fernay sobre a Grcia; os jornais publicam outro prefcio do sr. Renan, todo cheio do sr. Renan, e em 
que ele se mostra, como sempre, o enternecido e erudito vigrio de Nossa Senhora da razo; e temos, enfim, um casamento de paixo e de luxo, o do nosso escultural 
visconde de Fonblant com mademoiselle Degrave, aquela nariguda, magrinha e de maus dentes, que herdou, milagrosamente, os dois milhes do cervejeiro e que tem to 
lindamente engordado e ri com dentes to lindos. Eis tudo, minha adorada... E  tempo que te mande, em monto, nesta linha, as saudades, os desejos e as coisas ardentes 
e suaves e sem nome de que meu corao est cheio, sem que se esgote por mais que plenamente as arremesse aos teus ps adorveis, que beijo com submisso e com f.


Fradique




Quarta Carta a Clara



Minha amiga.


 verdade que eu parto, e para uma viagem muito longa e remota, que ser como um desaparecimento. E  verdade ainda que a empreendo assim bruscamente, no por curiosidade 
de um esprito que j no tem curiosidades - mas para findar do modo mais condigno e mais belo uma ligao, que, como a nossa, no deveria nunca ser maculada por 
uma agonia tormentosa e lenta.
     Decerto, agora que eu dolorosamente reconheo que sobre o nosso to vioso e forte amor se vai em breve exercer a lei universal de perecimento e fim das coisas 
- eu poderia, poderamos ambos, tentar, por um esforo destro e delicado do corao e da inteligncia, o seu prolongamento fictcio. Mas seria essa tentativa digna 
de si, de mim, da nossa lealdade - e da nossa paixo? No! S nos prepararamos assim um arrastado tormento, sem a beleza dos tormentos que a alma apetece e aceita, 
nos puros momentos de f e todo deslustrado e desfeado por impacincias, recriminaes, inconfessados arrependimentos, falsa ressurreies do desejo, e de todos 
os enervamentos as saciedade. No conseguiramos deter a marcha da lei inexorvel - e um dia nos encontraramos, um diante do outro, como vazios, irreparavelmente 
tristes, e cheios do amargor da luta intil. E de uma cousa to pura e s e luminosa, como foi o nosso amor, s nos ficaria, presente e pungente, a recordao de 
destroos e farrapos feitos por nossas mos, e por elas rojados com desespero no p derradeiro de tudo.
     No! Tal acabar seria intolervel. E depois como toda a luta  ruidosa, e se ano pode nunca disciplinar e enclausurar no segredo do corao, ns deixaramos 
decerto entrever enfim ao mundo um sentimento que dele escondemos por altivez, no por cautela - e o mundo conheceria o nosso amor justamente quando ele j perdera 
a elevao e a grandeza que quase o santificam... De resto, que importa o mundo? S para ns, que fomos um para o outro e amplamente o mundo todo,  que devemos 
evitar ao nosso amor a lenta decomposio que degrada.
     Para perptuo orgulho do nosso corao  necessrio que desse amor, que tem de perecer como tudo o que vive, mesmo o Sol - nos fique uma memria to lmpida 
e perfeita que ela s por si nos possa dar, durante o porvir melanclico, um pouco dessa felicidade e encanto que o prprio amor nos deu quando era em ns uma sublime 
realidade governando o nosso ser.
     A morte, na plenitude da beleza e da fora, era considerada pelos antigos como o melhor benefcio dos deuses - sobretudo para os que sobreviviam, porque sempre 
a face amada que passara lhes permanecia na memria com o seu natural vio e s formosura, e no mirrada e deteriorada pela fadiga, pelas lgrimas, pela desesperana, 
pelo amor. Assim deve ser tambm com o nosso amor.
     Por isso mal lhe surpreendi os primeiros desfalecimentos, e, desolado, verifiquei que o tempo o roara com a frialdade da sua foice - decidi partir, desaparecer. 
O nosso amor, minha amiga, ser assim como uma flor milagrosa que cresceu, desabrochou, deu todo o seu aroma - e, nunca cortada, nem sacudida dos ventos ou das chuvas, 
nem de leve emurchecida, fica na sua haste solitria, encantando ainda com as suas cores os nossos olhos quando para ela de longe se volvem, e para sempre, atravs 
da idade, e perfumando a nossa vida.
     Da minha vida sei, pelo menos, que ela perpetuamente ser iluminada e perfumada pela sua lembrana. Eu sou na verdade como um desses pastores que outrora, caminhando 
pensativamente por uma colina da Grcia, viam de repente, ante os seus olhos extticos, Vnus magnfica e amorosa que lhes abria os braos brancos. Durante um momento 
o pastor mortal repousava sobre o seio divino, e sentia o murmrio do divino suspirar. Depois havia um leve frmito - e ele s encontrava ante si uma nuvem recendente 
que se levantavam se sumia nos ares por entre o vo claro das pombas. Apanhava seu cajado, descia a colina... Mas para sempre, atravs da vida, conservava um deslumbramento 
inefvel. Os anos poderiam rolar, e o seu gado morrer, e a ventania levar o colmo da sua choupana, e todas as misrias da velhice sobre ele carem - que sem cessar 
sua alma resplandecia, e um sentimento de glria ultra-humano o elevava acima do transitrio e do perecvel, porque na fresca manha de Maio, alm, sobre o cimo da 
colina, ele tivera o seu momento de divinizao entre o mirto e o tomilho!
     Adeus, minha amiga. Pela felicidade incomparvel que me deu - seja perpetuamente bendita. 



Fradique


FIM
